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domingo, fevereiro 14, 2016

Um Anjo no Buraco 18



Foi num sábado que tudo se passou, era meio da manhã de um dia sem nuvens quando John Rawlings e Jim Sterling caminhavam para o 15º buraco da habitual partida de golfe de fim-de-semana. Tinham começado mais cedo que toda a gente e toda a ponta norte do campo estava por sua conta, John estava à frente por duas tacadas, ia contente com a vida, peidando-se enquanto caminhava até à bola, não fazendo qualquer esforço para esconder a satisfação estampada no sorriso idiota que herdou do pai ou a enorme nuvem de flato que libertava ruidosamente enquanto esticava dramaticamente a perna direita.
- Mete os olhos nesta tacada e faz as tuas pazes com Deus – Disse John, posicionando-se para a jogada. É verdade que Jim é o seu melhor amigo, porém também é verdade que Jim faz mais quarenta mil dólares/ano que ele e que a mulher dele tem um traseiro melhor do que o da sua, o que tornava a eminente vitória tão mais saborosa.
John e Jim não teriam maneira de saber, mas estavam prestes a ser as primeiras testemunhas do que se viria a tornar o mais impactante evento da história, e como em tantos outros acontecimentos de grande magnitude mundial, ele começou com algo que literalmente caiu do céu.
“Foi tudo muito rápido. Estava a preparar uma tacada e de repente foi como se o sol tivesse crescido, ficou tudo muito claro, era uma luz branca muito forte, larguei o taco e tapei os olhos com as mãos. Gritei pelo Jim, mas não ouvi a minha própria voz, não sei se foi do choque se da luz, porque a coisa toda não deve ter durado mais que uns cinco segundos, mas durante esse período não se via nem se ouvia absolutamente nada. Eu tinha os olhos fechados e cobertos pelas mãos e ainda assim estava completamente ofuscado. Só me lembro de pensar que era a bomba atómica, e mal acabo de o pensar ouve-se um grande estrondo, sinto o chão a estremecer debaixo dos meus pés e a luz começa a desvanecer-se. Foi aí que o vi pela primeira vez” – relatou John Rawlings.
Sim, estas seriam as primeiras testemunhas, mas em breve a notícia espalhar-se-ia pelo mundo inteiro. John e Jim depois de assegurarem que estavam inteiros são confrontados com a mais incrível visão das suas vidas.
A cratera estava a uns cinquenta metros de nós e dava para vê-lo tão bem como o estou a ver a si, eu caí de joelhos e tentei rezar mas não consegui lembrar-me de nada. Quando olhei para o John ele estava de telemóvel na mão a tentar filmar aquilo” – Relatou Jim Sterling.
Passados dois anos continuamos a não ter um nome melhor do que Anjo para lhe chamar. A ciência não ajudou a explicar o que era aquilo, o que pretendia ou de onde vinha, contudo a igreja acabaria por se revelar igualmente incompetente, o impacto dos acontecimentos daquele dia 27 de Maio de 2016 são inegáveis e no entanto é difícil dizer em que medida nos mudaram enquanto o que quer que raio a soma de todos nós é.
Olhando apenas para os factos, uma figura humana de fisionomia masculina caiu do céu e estatelou-se num campo de golfe em Los Angeles. A coisa, tinha uns dez metros de comprimento e aparentava ter um aspecto perfeitamente humano, exceptuando pelas suas dimensões e pelo par de asas brancas que lhe brotavam das costas. Este anjo caíra e ficara inerte no chão de peito aberto para a relva e asas recolhidas, de costas para o céu.
A notícia espalhou-se depressa, afinal de contas estamos a falar de Los Angeles, esta cidade não conseguiria manter um segredo mesmo que tentasse, e apesar de algum cepticismo inicial, o público em geral percebeu que não se tratava de um elaborado golpe publicitário, quando o Presidente se dirigiu pela primeira vez à nação.
Naturalmente os órgãos de poder foram todos muito cautelosos, o próprio Vaticano não reconheceu o espécime enquanto anjo e pediu prudência aos seus fiéis, esses velhos burocratas dividiam-se entre os que não acreditavam em milagres e os que têm tudo a perder com eles, visto que no seu santo best-seller, anjos caídos não auguram nada de bom. O coelho estava fora da cartola, a questão agora era de onde vinha, estará vivo e se sim, quais as suas intenções? Foram reunidas equipas de cientistas para analisar o fenómeno, eles operavam dentro do perímetro definido pelo exército enquanto que do outro lado das barreiras a multidão crescia a um ritmo alarmante.
Lembro-me de estar em casa a ver as imagens aéreas. A clareira, o corpo inerte, o mar de gente à volta, a minha mãe comentou que parecia o menino na manjedoura, a mim lembrou-me o ralo de uma banheira para onde se esvai a água suja, senti-me aliviado por não estar assim tão perto do momento mais importante da história da humanidade.
Imagino como se devem ter sentido os homens da ciência quando perceberam que algo os impedia de se aproximarem do corpo, uma espécie de cúpula invisível mantinha um raio de dez metros a toda a volta dele, um manto protector que não se via, não se sentia e no entanto parecia irresistivelmente eficaz, dir-se-ia que era feito de vontade pura, ou de fé, mas mesmo aqueles que se diziam homens de fé não conseguiram transpor a barreira, por mais que enchessem a barriga de jejum e a cabeça de rezas.
O tempo passava e a falta de novidades virava alguma da atenção para a multidão, havia milhares que rezavam, choravam e olhavam o céu como se esperando o segundo acto daquela bizarria. Alguns gritavam e falavam de um sinal do fim dos tempos, na televisão o tele-evangelista Rick Masterson causou alguma polémica quando chamou a atenção para a clara evidência de que o Anjo era branco e que caíra em Los Angeles, como que envenenado pelos casamentos homossexuais e clínicas de aborto: “Meus irmãos Deus está descontente com a América porque espera mais dela do que do resto do mundo, ele já sacrificou o seu único filho por nós e agora a podridão que se infiltrou no nosso país está a fazer anjos tombarem do céu. Está na hora de trazer de volta este país para os valores cristãos que o tornaram grande” – Declamou o Reverendo Masterson, terminando o seu sermão com um irónico “Onde estão os ateístas agora com todas as suas verdades científicas e teorias evolucionistas? Para essas pobres almas tenho apenas estas palavras: Arrependam-se”.
Foram dois dias intensamente estranhos, ninguém sabia o que o amanhã traria e por mais assustador que isso fosse, no meio de todas as emoções havia uma excitação geral, um sentimento de que pela primeira vez nas nossas vidas algo realmente grande estava a acontecer. Ninguém podia prever o quão mais estranhas as coisas iam ficar.
“Ele está a mexer, Ele está vivo!”
Começou com um leve agitar de cabeça como quem acorda de um sono longo, depois o seu longo braço direito deslizou debaixo da asa e o anjo levou a mão ao rosto e esfregou os olhos como o mais comum dos homens, a multidão rugia enquanto a imponente figura se erguia, os olhos do mundo estavam naquele campo de golfe na cidade dos anjos, um milagre de dez metros de altura, maior que qualquer homem, um verdadeiro pedaço de Deus e do Sublime.
Coube ao General Anthony Marsh a oportunidade de se dirigir ao Anjo: “Bem-vindo à América, o mundo saúda-o!” A multidão rugiu ainda mais alto atingindo um zénite de fervor que se foi esmorecendo como que esperando uma resposta do anjo. Recordo-me que o meu coração batia muito forte, eu queria muito ouvir a voz d’ Ele.
O Anjo manteve-se em silêncio, olhou à volta, girando sobre si próprio demorando-se um pouco mais no sol para o qual olhou de frente como uma ave de rapina. As suas mãos desceram sobre a túnica branca que lhe cobria o corpo e chegando à extremidade que lhe cobria os joelhos, arregaçou-a para cima, expondo as suas coxas peladas.
A multidão susteve a respiração enquanto o anjo sem vergonha pegou no seu pénis que deveria medir um bom metro de comprido e começou a urinar para a relva. Ele fez aquilo muito casualmente, o mijo saía-lhe com a pujança que se espera de um ser com a altura de um edifício que acabou de acordar de um sono de dois dias, teve tempo até de mirar para a bandeira que assinalava o buraco dezoito, fazendo-a tombar com o seu poderoso caudal virando depois a sua atenção para o arbusto mais próximo. Quando acabou limpou as mãos à roupa e disparou pelo ar em direcção ao céu para nunca mais ser visto.
Não posso falar por toda a gente e não vou sequer fingir que faço a mais pequena ideia do que tudo isto significa. Quando algo de grande acontece, o lado com as mais apaixonadas certezas será sempre a facção com os piores e mais idiotas de nós. O que senti foi que não éramos assim tão grandes, que havia realmente coisas maiores que nós para lá deste mundo, coisas tão mais diferentes que cada um de nós, que a mera visão delas deveria servir para olhar-mos para qualquer pessoa e ver-mos um irmão, um membro da família humana.
Quando aquele estranho mijou sobre o chão da Califórnia, senti que mijava no meu quintal, no quintal de todos nós e fê-lo com o desprendimento dos astros, não porque nos ama ou odeia e sim porque por acaso estávamos no caminho.

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