Blogs Portugal

sábado, março 05, 2016

A Profecia do Duche Quente



Eu senti-a pela primeira vez durante o banho, a água quente escorria-me pela nuca e no meio do nevoeiro quente uma ideia formou-se no meu cérebro, de que estava a entrar naquela idade em que a morte ganha protagonismo. Não para mim, estava a entrar nos trintas e como fui tardio em tudo, ainda me sentia melhor a cada ano que somava à minha conta pessoal; Pensava na morte do meu pai, que haveria de chegar em breve e mexer com a ligeira calma que vem com a idade, e mal o pensei senti aquele tipo de medo que as pessoas chamam de superstição e ressenti-me das coisas que penso sem querer, temendo que de algum modo as torno realidade.
E tornei, nem dois meses passados e o velhote estava internado. Eu estava em Lisboa quando recebi a notícia, eram os tempos depois do primeiro livro e não andava a escrever nada, em parte porque nada estava a acontecer. Não havia nenhuma daquela energia febril que me levou a lugares estranhos, daquele desdém pela vida que purgava para as páginas como se disso dependesse a salvação. A ferida fora sangrada, o livro foi escrito e agora estava nas estantes desse mundo, encarava-me da mesinha da sala, tão coloquial e vulgar como qualquer outro, a minha alma, esvaída, coada e impressa, eu finalmente escrevera o livro e agora era suposto escrever outro, mas com o quê?
Eu vivera, revivera e no meio da tempestade escrevi, agora não, eu ultrapassei a chama, vivi para contar a história e virei as costas à vida. A narrativa continuou sem mim e agora isto, morte anunciada, logo quando te começas a habituar ao desconforto de ser mais forte que o progenitor, agora que os ressentimentos se esbatem em comparação com toda a merda que tens feito, o teu pai definha e impõe-se que tenhas alguma coisa a dizer acerca disso.
Quando o fui ver ele estava a dormir, tinha a boca ligeiramente aberta e estava mais magro, cheguei-me mais perto dele, tinha o braço direito descoberto e fiquei a olhar para lá porque era mais fácil que encarar-lhe o rosto mirrado. Puxei de uma cadeira e sentei-me à sua cabeceira, era tão estranha esta perspectiva, a de estar fora da cama, acocorado no sono de outro homem. Sentia que estava preso num ritual que não compreendia, que imitava os gestos dos outros crentes, sem no entanto sentir nenhuma da confiança que vem com a fé.
Aprendi algumas coisas naqueles dias, o velhote estava muito fraco, entreabria os olhos por uns segundos, balbuciava meia dúzia de palavras e desaparecia de novo. Não conseguia deixar de pensar que poderiam ser as últimas palavras dele e que não as compreender seria de alguma forma imperdoável. Era isso que me mantinha ali, não havia nada a fazer, o meu único papel era o de testemunhar. O meu pai estava a ouvir a melodia, ele dançava com a Sr.ª Morte, arrastando os pés pelo salão perfeitamente consciente do que aconteceria quando a música acabasse. Morrer, quando feito lentamente é a experiência mais profunda a que alguém pode aspirar, e vê-la a insinuar-se na própria fonte do que me trouxe ao mundo é a total expressão do que significa ser humano pois qualquer que seja o sentido da vida, a consciência da sua finitude parece ser a causa de tudo aquilo que vale mais que meia merda.
Ao 4º dia ficou consciente tempo suficiente para me ouvir, apertava-me a mão com a força possível, dei-lhe um beijo na face e disse-lhe ao ouvido que tinha sido um bom pai, que me ensinara sobre a vida até ao fim e que me dera um bom nome. Ele não disse nada, não havia nada a dizer, o tempo acabara para ele.
Mais tarde em casa senti uma fome enorme, peguei em duas fatias de pão de centeio com uma camada fina de marmelada e uma grande porção de queijo, trinquei-as com uma fome gloriosa engolindo com ânsia enquanto empurrava tudo para baixo com vinho tinto. Depois peguei em papel e comecei a escrever, começava comigo, Roberto Nevada a profetizar sobre a morte do seu pai no meio da névoa de um duche quente.

Sem comentários: