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domingo, janeiro 01, 2017

Morrer na praia



Roberto não se revia nos seus pais, aos doze anos era já claro que seria mais alto que eles e que não herdara as mãos habilidosas do pai ou a natureza trabalhadora da mãe. Na igreja também não havia grandes modelos a seguir, o padre veste saias e os anjos não passam de pirralhos gordos, apenas o Cristo lhe suscitava algum interesse, do topo do altar ele sangra pregado sem verter uma lágrima. Nas fantasias de Roberto, também ele morria sempre, inevitavelmente como um herói coroado pelo sacrifício supremo, uma espécie de atalho para a glória a que se julgava destinado.
Crescer não foi fácil para ele e com o tempo a sua ideia de heroísmo foi mudando. Tudo é mais simples quando se é criança, os homens ou são bons ou maus, mas com a idade procuramos ideais mais complexos, como anti-heróis que desculpem as nossas falhas e fraquezas e incidam alguma luz na escuridão que também sentimos ser nossa.
Aos dezasseis Roberto quase morreu. Estávamos em Maio e alguns de nós faltaram às aulas e pedalaram até à praia, o tempo estava bom e Roberto decidiu nadar um pouco, só se deu conta de quão forte a corrente estava quando se viu quase para lá do molhe. Nunca nadara até tão longe e ao tentar voltar pra terra percebeu que não estava a conseguir avançar. Ele ali ficou, cabeça à superfície, a água forçando-se para dentro dele e no meio daquilo pensava casualmente em como se porventura morresse ali, o resto dos rapazes estariam metidos numa bela alhada, mas não se imaginava a gritar por socorro.
Pouco depois um surfista que por acaso estava ali de passagem, apercebeu-se da situação e rebocou-o até à segurança da areia. Roberto sentiu alívio, mas o que mais sentiu foi choque pelo afastamento emocional com que encarou a possibilidade real de morrer.
Três anos mais tarde Roberto voltou à praia, alguém fazia anos e estava uma perfeita noite de primavera, daquelas em que as estrelas dão de si. Nessa altura Roberto já experimentava com a consciência, ele e o resto do grupo estavam bem bebidos quando decidiram caminhar na direcção daquele fim de terra, de frente para o mar negro da noite, enquanto o feixe de luz do farol lhes navalhava o topo das cabeças infladas pelo vinho verde e marijuana.
Ele sentia coisas, uma energia acumulada e urgente, algo de muito forte e físico que não conseguia exprimir sob pena de soar ridículo, inclusive a si próprio.
“Eles terão que ver para acreditar” – Pensou Roberto para consigo, nisto dirige-se a um dos amigos e incita-o a tentar magoá-lo.
“Anda, manda-me um soco com toda a força no estômago.”
O amigo soca-o e o punho resvala dele.
“Isso é tudo o que consegues? Bate-me a sério!”
O segundo soco é mais forte, ele sente-o mas não o magoa e a rir desafia o grupo todo.
"Mais alguém quer tentar? Ninguém me consegue magoar!"
Aquilo animou e mais uns poucos decidiram tentar. Roberto  enrolara-se a rir na areia enquanto um deles se atirava de joelhos sobre o seu abdómen.
“Suas meninas” – Incitava ele entre as gargalhadas, cara meia coberta de areia como um índio louco das caraíbas.
Ninguém o conseguiu magoar, pelo menos não naquele momento, ele tinha dezanove anos e era mais um rapaz à procura de um rito de passagem, de algum tipo de túnel de dor do qual emergisse um homem da outra extremidade. Tal não aconteceu naquela noite, com o tempo Roberto acabaria por aprender que a maturidade é a geologia dos homens, e que quaisquer mudanças parecerão lentas aos olhos que as procuram.
Mas para mim que escrevo esta história tanto anos depois, que posso unir o garoto ao homem em meia dúzia de parágrafos, estou em posição de dizer uma coisa ou outra sobre Roberto Nevada:
Foi a praia que o ensinou que quer se engula a água do mar ou se coma a areia do chão, é vital que se sobreviva, que se façam memórias e se criem histórias.

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